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domingo, 21 de junho de 2015

Carlo Mossy, que está na série ‘Magnífica 70’, recorda a época em que filmava na Boca do Lixo e suas paixões

Rio - Um dos ícones da pornochanchada, Carlo Mossy voltou no tempo. Na série ‘Magnífica 70’, que retrata o universo da produção desse tipo de filme, exibida no canal HBO, o ator e diretor de 68 anos interpreta Lúcifer, um comerciante que investe boa parte de seu dinheiro em produções eróticas do cinema nacional. O papel faz com que Mossy reviva a época em que filmava na Boca do Lixo, em São Paulo.
“Eu passei por aqueles problemas com meus filmes. Convivi muito com a ditadura, fui preso por ter exibido um filme sem o certificado da censura”, recorda o ator, que produziu 25 longas. “O censor tinha uma obrigação moral de cortar, era um peitinho aqui, uma bunda a mais... Por isso, a gente filmava um pouco mais, porque sabia que as cenas mais pesadas seriam cortadas.” 
Protagonista de comédias eróticas com títulos tão divertidos quanto bem-sucedidos em bilheteria, como ‘Lua de Mel e Amendoim’, ‘Oh, Que Delícia de Patrão’, ‘Como É Boa a Nossa Empregada’ e ‘Essa Gostosa Brincadeira a Dois’, Mossy aprendeu a driblar a censura nas sequências de sexo, mas sofreu com os diálogos. “Alguns filmes tiveram o som cortado por causa dos palavrões, ficavam buracos, mas nunca cortei nos negativos, só nas cópias”, conta. 
Para o ator, ser chamado de Rei da Pornochanchada é motivo de orgulho, apesar de muita gente ter torcido o nariz para seus filmes nos anos 70. “Nunca tive vergonha. Pelo contrário! O rótulo pornochanchada era pejorativo, para desmoralizar. A crítica elitizada não assistia e dizia que não gostava. Ficavam putos, porque os meus filmes passavam em mais cinemas e faziam sucesso.”
Belas mulheres também marcaram a história de Mossy no cinema. A paixão pela diva Odete Lara, seu par romântico em ‘Copacabana Me Engana’ (1968), acabou em confusão. “Ela era casada com o (diretor) Antonio Carlos da Fontoura, que não me perdoou até hoje”, diz. A química com a atriz Adriana Prieto em ‘Soninha Toda Pura’ (1971) também saiu da ficção para a vida real. “Fui muito apaixonado por ela. A turma considerava a dupla mais sensual da época”, admite o ator, que está casado pela terceira vez, com Íris, há 22 anos, e tem cinco filhos.
Embora tenha feito muitas cenas calientes, como as de ‘Essa Gostosa Brincadeira a Dois’, com Vera Fischer, ele garante que o clima era sempre de “muito respeito”. “As pessoas pensam que só rolava sacanagem. Eu era garotão, produtor... Beijava muito. Beijo, quando rolava química, a gente não desgrudava. Namorei, sim, muitas atrizes famosas depois dos filmes, mas isso acontece em qualquer profissão. O cinema tem essa coisa epidérmica. Beijou, rolou”, diz ele, que acrescenta: “Nunca fiz teste do sofá, nunca permiti sexo em troca de trabalho.”
Especialista em mulheres sedutoras, Mossy não economiza elogios a Simone Spoladore, que vive Dora, a estrela dos filmes da produtora Magnífica na série do HBO. “As lentes grudam nela feito ímã. Raríssimas atrizes suportam um superclose como a Simone. Ela sabe usar a epiderme como técnica no assunto”, derrama-se ele, que a compara com outra musa: “Ela seria a atriz que mais se assemelharia à divina Adriana Prieto, no que diz respeito ao ‘physique du rôle’, uma tropicalizada mescla de ingenuidade ‘femeal’ agregada à irreverência e cinismo sensual.”


Publicada em 10/06/2015 – O DIA

domingo, 24 de maio de 2015

'Magnífica 70', nova série do HBO, retrata a produção de pornochanchadas na Boca do Lixo nos anos 70

Rio - É na Boca do Lixo dos anos 70, região central de São Paulo onde se concentrava parte da produção do cinema brasileiro na época do regime militar, que se passa a história de ‘Magnífica 70’, nova série que estreia neste domingo, às 21h, no HBO. Na trama dirigida por Cláudio Torres, o censor da ditadura Vicente (Marcos Winter), a atriz de pornochanchadas Dora (Simone Spoladore) e o produtor Manolo (Adriano Garib) vivem um intenso triângulo marcado pela obsessão. 

“Eu vivi essa época. Era uma loucura! Quando comecei no teatro, em meados de 1984, eu pegava as velhinhas da censura em casa e as levava para ver as peças antes de estrear”, conta Marcos Winter, de 48 anos, ao DIA. “A Boca do Lixo não fazia só filmes de pornochanchada. Havia outros gêneros, como as comédias, os do Zé do Caixão...”, emenda.

Casado com Isabel (Maria Luisa Mendonça), filha de um general, Vicente leva uma vida acomodada, escrevendo relatórios e classificando filmes para a censura. Após assistir ao longa ‘A Devassa da Estudante’, ele acaba se apaixonando pela protagonista, Dora, e vai parar na produtora Magnífica, onde começa a escrever e a dirigir pornochanchadas. 
“Ele foi criado para ser manso, politicamente engajado. Quando é preso durante uma manifestação por ajudar uma mulher, o pai pede ajuda a um general para tirá-lo da cadeia. Em troca, o militar faz com que ele se case com a filha solteirona”, adianta o ator. “Ele é quase um anti-herói”, define.

O censor conhece Dora e Manolo quando os dois vão ao escritório para tentar liberar um filme. Sensibilizado com o drama dos dois, que estão quase falidos na produtora, Vicente reescreve uma cena e, depois disso, passa a levar uma vida dupla.
“O filme de Dora o remete a uma tragédia do passado, com a cunhada dele, uma ninfeta que o atentava. Ajudar os dois é uma forma de se redimir, de não carregar mais essa culpa”, conta Marcos.

Sem ter vivido aquela época, Simone Spoladore, de 35 anos, revela que buscou referências assistindo a clássicos do gênero, como ‘Escola Penal de Meninas Violentadas’ (1977) e ‘A Super Fêmea’ (1973), com Vera Fischer. Sua personagem é uma golpista que age com o irmão, Dario (Pierre Baitelli), um ex-presidiário que tem dívidas com outros bandidos.

“Dora entra na produtora para roubar o dinheiro e tentar ajudar o irmão, mas acaba se apaixonando pelo cinema. Ela descobre que tem alma de artista”, diz a atriz, acrescentando: “A relação com o Vicente passa por essa descoberta artística. É uma paixão com esse viés, tem uma química, uma parceria entre atriz e diretor.”

Com 13 episódios, de uma hora de duração cada um, a série mostra várias cenas de nudez. O que não é problema para Simone. “Para mim, é natural, faz parte do trabalho, já fiz cenas assim em filme”, garante a atriz. “A nudez não era tão evidente, existe na medida do que é permitido mostrar.”

Marcos Winter ressalta que, nos anos 70, a nudez tinha um impacto que hoje não tem. “Não era comum ver um peitinho ou uma bunda como nas novelas atuais. Os jovens não tinham uma vida sexual tão ativa como hoje em dia”, diz.



Publicado em 23/05/2015 – O DIA